Depois de ser indicado finalista do Prêmio Sharp na categoria revelação, Ricardo Mansur se junta com Fabricio de Souza(Emilio Santiago, Claudio Zoli, Sandra de Sá) e Wallace Santos (Sandra de Sá, Claudio Zoli, Pe. Fábio de Mello) e forma o Mansur Samba Trio. Navegue no blog e confira a entrevista de pré-lançamento do DVD - Mansur Samba Trio ao vivo no Teatro Municipal de Niterói - 2008.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Entrevista Ricardo Mansur - pré-lançamento DVD Mansur Samba Trio

Por Miguens

Não sou crítico de música nem nada disso... Ou pelo menos não mais do que qualquer um. E é justamente considerando essa perspectiva que sinto segurança para escrever sobre um trabalho que, ao meu ver, soa extremamente maduro e bem resolvido. A entrevista seguinte foi feita a pedido do próprio Ricardo Mansur e, também, foi a seu pedido que parti da premissa de não seguir uma trilha “chapa branca” de perguntas. Diante disso - ao contrário da grande maioria das entrevistas que vemos publicadas - procurei tornar esse um espaço realmente amplo para o entrevistado. Acredito que a essência do trabalho do Mansur Samba Trio esteja fielmente transcrita aqui, ainda que se mostre com parcimônia por conta da limitação acachapante das palavras. De todo modo, as músicas estão linkadas para que todos possam mergulhar no trabalho do grupo sem impedimentos e construir uma idéia própria. Além disso, essa entrevista marca o pré-lançamento do DVD Mansur Samba Trio, que foi gravado no dia dezesseis de julho de 2008 no Teatro Municipal de Niterói. Santa Teresa, Wilson Divisão e Samba Simples são as músicas que estão apresentadas aqui.

Mansur Samba Trio
Fabricio de Souza (baixo)
Wallace Santos (bateria)
Ricardo Mansur (voz e violão)

Antes de tudo quero saber porque, quando entrevisto o Mansur Samba Trio, é você quem se apresenta para responder às minhas perguntas?

É uma boa pergunta. O grupo foi formado à partir de uma parceria entre mim e Fabrício de Souza que já vem de longa data. O Fabrício é um músico estupendo, desses que tem a música no sangue, mesmo. Ele toca baixo, toca piano e seria capaz de tocar qualquer coisa que quisesse. Ele não é um pianista, mas quando faz um acorde no piano soa de um jeito que por vezes nem um pianista faz soar. Ele, o meu irmão Zely Mansur (músico e produtor) e meu parceiro Ricardo Moreno sempre foram os meus maiores incentivadores. Foram eles que me disseram sempre – Suas músicas são muito boas, vamos em frente, vamos colocar o trabalho na rua... Quando entrei numa de obedecê-los estava, já fazia algum tempo, numa onda de compôr sambas e fascinado por isso então as músicas que compõem o repertório são basicamente de minha autoria, eu canto e faço às vezes de porta voz. O Fabrício trouxe o Wallace Santos que é um batera também estupendo. É muito suingue mesmo. Os dois são de São Gonçalo que é uma cidade do Grande Rio que tem uma tradição incrível de músicos sensacionais como Oberdan Magalhães, fundador da Black Rio; Paulinho Guitarra, que tocou com Tim Maia nas melhores épocas e que toca hoje com Ed Motta; Willian Magalhães, filho do Oberdan, que tocou com toda a MPB e hoje remontou a Black Rio; Cláudio Zoli e muitos outros. É uma cidade muito peculiar que cresceu à beira de uma linha de trem desordenadamente ou até caoticamente, mas esse caos e desordem de outra feita parecem ter conferido à cidade um suingue natural. Se o cidadão não tem suingue definitivamente não anda em São Gonçalo. Eu nasci em Niterói que é ali pertinho. Mas voltando à pergunta: eu faço esse papel de porta voz e compositor, mas o som do grupo é fechado, eles não estão apenas me acompanhando, todos dão opinião no repertório e o som do grupo é a reunião das minhas músicas com uma concepção coletiva. Foi o Fabricio de Souza que deu a idéia de ser apenas um trio.

Você mencionou a “tradição” de São Gonçalo no que diz respeito à produção de músicos com suingue. Isso diz um pouco - ainda que indiretamente - sobre qual é a sua idéia de artista. Gostaria que falasse um pouco sobre isso.

Bom, cometi um ato falho. Coloquei a palavra “tradição” para falar de São Gonçalo e seu suingue, mas realmente o conceito de “tradição” me é caro, não no sentido de “tradicionalismo xenófobo”, nem no sentido do que se poderia chamar de “folclorismo burguês”, muito em voga hoje em dia, mas no sentido do que surge na cultura como tradição pela força espontânea que acaba por sedimentar uma linguagem. O samba no Rio de Janeiro é isso, falando apenas da minha praia, do lugar onde nasci e me criei. O samba no Rio sedimentou uma linguagem e uma prática cultural, isso é muito forte e essa força vem da espontaneidade, não é algo pensado, ao meu ver. Eu sou um filho da classe média-média, que cresceu ao som da MPB, e tive um primeiro contato com o samba do Rio por influência de pessoas que tive em meu convívio. Quando resolvi ser músico fui estudar violão erudito e harmonia. Estudei muito e nessa época me liguei muito em música instrumental, mas desde sempre ouvi de tudo vorazmente, todos os gêneros e até hoje eu escuto de tudo. Mas quando resolvi ser artista tive a clareza de que precisava de um eixo. Esse eixo durante muito tempo foi o chamado “tropicalismo”, já que queria fazer canções e sou o que alguns chamam de “cantositor”, canto as minhas composições. Fiz um disco em 1996 chamado “Terra de Índio” e ele foi finalista do prêmio Sharp, na categoria revelação pop-rock, é um disco todo misturado, tem um funk-soul, reggae, balada, uma musica meio African-pop, uma canção mineira, enfim... Era bem “neo-tropicalista”. Apesar do sucesso da crítica o disco não teve sucesso comercial e isso acabou me fazendo rever se eu estava realmente satisfeito com o que tinha escolhido, até que depois de um tempo dei uma parada porque não sabia o que fazer. Nada me satisfazia, cheguei mesmo a desistir e quando já estava desencanado de tudo me deparei novamente com o samba, mas com um novo olhar, que só foi possível pelo distanciamento do desejo de ser artista. E entendi musicalmente que o samba carioca tem uma linguagem muito clara, na forma, na harmonia, na interpretação, na melodia... E percebi que o tropicalismo serviu bem ao Caetano e ao Gil, a partir de um conceito que extrapolava às questões meramente da arte musical, e englobava política, comportamento, questões sociais e toda sorte de opiniões e experimentações sobre tudo, que coube bem à época em que foi lançado, mas me basear naquela experimentação de “qualquer coisa” como eixo artístico, pra mim, perdeu o sentido. E passei a me basear em artistas com uma obra mais regular como Paulinho da Viola, João Donato, João Nogueira,Tom Jobim, Chico Buarque. etc.. São artistas que, ao meu ver, conseguiram atingir uma unidade na obra. Mudei de foco.

E qual é a verdadeira necessidade artística que justifica essa mudança de foco?

Eu quero ser claramente identificado pela música que faço, não sei se vou conseguir, mas esse passou a ser o eixo da minha necessidade artística. Depois dessa mudança de foco, se aprofundou em mim o respeito e a admiração aos sambistas do subúrbio do Rio, porque eles têm um sentido de tradição em relação à linguagem musical e não ao tradicionalismo em si como alguns pensam. Tive a oportunidade de conhecer e conviver um pouco com alguns desses geniais artistas, como Zé Luis do Império, Camunguelo, Luis Carlos da Vila, Davi do Pandeiro (com quem toquei profissionalmente), Bira da Vila (que participou do DVD), Wanderley Monteiro e pude conversar, tocar e aprender com eles. Fui chamado para produzir um CD que ainda está para ser lançado com o fabuloso violonista João de Aquino (produtor do genial disco “Axé” de Candeia) primo do Baden Powell, que é dono de uma concepção harmônica bem ousada, aprendi muito com ele também. A cena do samba por vezes é chamada pejorativamente de “reserva indígena” ou algo parecido, com uma ironia que é desrespeitosa e injusta. Claro que existem os “xenófobos de plantão”, mas se colocarmos todos no mesmo balaio incorreremos em erro. Os compositores de samba merecem profundo respeito. Eles estão dedicados à linguagem. Isso é muito saudável e não quer dizer necessariamente falta de inovação, criatividade ou algo parecido. Quando entrei naquele universo percebi mais claramente a assertiva “o samba tem mistérios”. Isso é uma verdade profunda. Desvendar esses mistérios, do ponto de vista musical, passou a ser uma motivação artística.

Você fala em classe média-média, São Gonçalo, sambistas do subúrbio e tropicalismo. A questão é a seguinte: onde cabe o seu trabalho?

Não sei onde cabe. O nosso trabalho vai caber no ouvido de quem se interessar em ouvi-lo ou de quem se interessar em ir aos shows que faremos. Não somos sambistas, mas tocamos e compomos samba. Quando digo que não sou sambista é em reverência aos sambistas e não ao contrário. Porque na profusão de preconceitos, confusões e controvérsias a que estamos submetidos existem artistas e ouvintes que rejeitam o samba (por preconceito mesmo e até hoje existe isso) e também existem hoje em dia, no Rio, muitos músicos vestindo chapéu da velha guarda ou usando aquele colar do candomblé chamado lagdibá e fazendo pose de malandro. Nosso caso não é nem um nem outro. Então quando falo que não sou sambista é por respeito aos sambistas e se eu dissesse que sou sambista estaria perdendo a noção do ridículo, para o camarada ser chamado de sambista precisa comer muita poeira e representar aquele universo. Enfim, é coisa séria. Eu sou apenas um músico formado por muitas influências, mas que resolveu compôr e tocar samba por prazer. Puro prazer. O samba que eu faço tem ligação basicamente com o samba sincopado, mas transita pelas influências que tenho. E a maneira como nós do Trio resolvemos tocá-lo também influencia no resultado. Nós tocamos com liberdade de improvisação. Então o som resulta fluido. E isso nos interessa bastante e nos dá prazer. Não nos interessamos por reproduzir arranjos milimetricamente como a música pop faz. Nos interessamos por tocar fluidamente, com dinâmica e soltos. Mas também não tocamos só samba. No show tem um choro que está composto no estilo tradicional do choro, ou seja, tem três partes, mas tem acordes e melodia bem contemporâneos, digamos assim. Tem uma balada brasileira influenciada por melodias cromáticas que são características das canções do Chico e do Tom. Tem uma música instrumental que tocamos que é de um compositor americano chamado Horace Silver na qual fizemos um arranjo rítmico em samba. Tem uma música com uma levada afro no compasso que chamamos seis por oito. Então, no nosso "samba" cabe muita coisa e espero que a música que fazemos caiba em muitos ouvidos.

De alguma forma, o que está dizendo é que a arte é uma manifestação sensual e, por conta disso, pode dizer respeito ao desempenho de uma atividade prazerosa. Com você vê, especificamente na música, a interação entre a idéia e a execução?

Vamos lá! No meu entender o prazer no tocar é fundamental e o prazer tem a ver com fruição. A escolha de tocar samba e música brasileira no meu caso tem a ver com facilidade, prazer e fruição. Quando estava estudando música cometi uma ousadia que vou contar agora e que tem a ver com a pergunta. Conheci o maestro Guerra Peixe num recital e perguntei a ele se poderia mostrar umas músicas que tinha composto para que avaliasse. Na época, eu compunha músicas instrumentais um tanto complexas e pra minha surpresa ele me deu um cartão e combinamos uma visita à sua casa numa terça-feira às duas da tarde. Quando cheguei ele se desculpou por não ter bebidas para oferecer porque já havia bebido tudo que tinha na casa, ele morava sozinho. Sentei com meu violão e abusadamente toquei umas cinco músicas seguidas. Eram experimentos musicais e não havia ali nenhuma unidade, eram músicas soltas. Entre elas havia um baião. Ele ouviu pacientemente e no final me disse – Olha... Tá bom. É inventivo... Mas o baião foi a música que você cantou com mais facilidade. Depois de muito tempo eu entendi o que ele quis me dizer: a música que você pode executar melhor é a música brasileira, é uma coisa óbvia e quase ridícula, mas como vivemos nesse “cosmopolitismo de mão única” é muito pertinente. Então quando decidi compor e cantar basicamente sambas e música brasileira foi porque obviamente me sentia mais “em casa” fazendo isso, tinha mais facilidade, prazer e fruição. Já toquei rock, funk, reggae, jazz, semba e tudo que um músico profissional pode encontrar pela frente por força da profissão...Domino bem a "maquinária" de produção, pro-tools e softwares de música eletrônica que me permitem trabalhar para publicidade, nessa área que não considero propriamente artística, toco de tudo. Mas obviamente o Winton Marsalis tocando jazz é melhor que qualquer jazzista de qualquer país. Logo, entre tocar “rock à brasileira” e ser visto por um americano como um sub-produto meio estranho, fico com o samba e toco sorrindo. O Keith Richards certa vez disse que não entendia os brasileiros tocando rock enquanto tem uma música tão rica no Brasil. É mais ou menos o que o Guerra Peixe me disse. É óbvio que eu não sou contra quem escolhe tocar rock, funk, reggae ou qualquer outro gênero, cada um escolhe fazer o que bem entende do talento que tem e da própria vida, não acho saudável e nem vejo sentido numa guerra entre "caretas nacionalistas ligados à tradição" e "modernosos cosmopolitas em busca da evolução". São grupos caricatos que se mostram igualmente infantis, se igualam por insensatez. Se há radicalismo de ambos os lados, não há civilidade, é saudável que aja respeito real a quem pensa diferente. Então eu tenho minha escolha e estou muito contente e feliz com ela, quero compôr e tocar a música do lugar onde nasci. No Rio se fala em ritmo de samba, qualquer papo na rua é em ritmo de samba, o falar é sambeado. Então, pra mim, é tudo mais fácil e dá mais prazer. A minha escolha é essa. Mas como ouvinte e consumidor de música, escuto de tudo, com muito prazer também.

Agora, para finalizar com uma pergunta que pode recair em questões mais práticas: como se dá o processo de produção do grupo?

Por enquanto tivemos um pequeno financiamento para gravar o DVD que, diga-se de passagem, foi o segundo show do grupo. Agora estamos editando de maneira independente e procurando parcerias que viabilizem o lançamento do DVD no mercado e uma série de shows após o lançamento. Estamos construindo uma página que vai conter todas as músicas e vídeos disponibilizados sob licença Creative Commons. Te agradeço a oportunidade e fico feliz de fazer esse pré-lançamento no Overmundo, que é um site que eu adoro e onde fiz alguns amigos importantes. Acho que falei demais, mas como falar de música é algo impossível, acabo por usar muitas palavras, acho que daqui por diante vou falar menos. Quando estivermos tocando acho que naturalmente vou falar menos. Então fica o convite a todos para assistirem em breve um show do Mansur Samba Trio.

Por Miguens

1 comentários:

  1. muito boa a entrevista..queria deixar uma indicação:
    conheci a pouco tempo um pianista que tem muita influencia do trabalho do egberto...
    escute depois - www.myspace.com/rodrigoandreiuk

    tem um vídeo dele tocando 'palhaço' do egberto..aqui:http://www.youtube.com/watch?v=w87CRBb77sc

    ResponderExcluir

Seguidores